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Cafeína SP
Cafeína SP Crônicas mal dormidas da vida do designer David Michelsohn e de sua parceira constante, a cafeína.

 
 
 
 
Bar

Saí com uma amiga. Foi dia desses, nessa nova vida de solteiro.

Combinamos de ir num bar bem bacana, ambiente aconchegante e tudo mais. Ela era amiga de muitos anos, mas à noite todos os gatos são pardos, então me preparei com a correntinha da sorte, a camisa mais cool e mais limpa que eu tinha e tomei meu rumo.

Subi no Bala-de-Prata (meu valente Celta 1.0 prateado) e arranquei em direção à Vila Madalena. Uma sequência que havia começado tão bem com os seis primeiros sinais sempre verdes foi interrompida por alguns pedestres sem-noção que resolveram atravessar a rua fora da faixa, correndo bem na minha frente.

Filhos-da-puta!

Contive meus instintos mais sanguinários e freei com antecedência, no tempo certinho para assustar o último da turma. Parado antes da faixa de pedestres me senti um cidadão exemplar e cumpridor do dever cívico.

Merecia uma recompensa - resolvi que naquele momento era socialmente aceitável futucar o nariz. Pois dito e feito, bem no instante em que eu desencavei aquele melecão grotesco, ouço uma buzinadinha leve e percebo alguém acenando para mim no carro ao lado.

Olhei tentando disfarçar e percebi que se tratava de uma gatinha. Baixei a janela enquanto ela perguntava onde ficava tal bar. Ela tinha um olhar engraçado. - Que bar é esse? - perguntei. O olhar engraçado era na verdade um riso mal reprimido, que terminou por explodir numa gargalhada estrondosa entrecortada por um "esquece", prenuncio da fuga precipitada da moça.

A correntinha da sorte já foi melhor - eu pensei.

Consegui estacionar bem perto, menos de uma quadra de distância. Melhor que isso, como era cedo não havia nenhum guardador de carro.

Cheguei no bar e chaga um torpedo - vou atrasar mas chego logo. Cara de pau! essa menina me deixou esprando mais de meia hora. Pedi a cachacinha de lei e um torresmo pra arrematar - saúde!

Estrategicamente depois do final da porção de torresmo minha amiga chegou, toda esbaforida, meio estressada e reclamando de um carinha mala-sem-alça que ela havia beijado - esses caras saem com a gente duas vezes e já acham que têm um relacionamento, credo!

Depois a moça discorreu sobre uns casos anteriores que haviam acabado meio mal. incluindo nesse rol a história de um sujeito por quem ela não tinha muito tesão mas topou sair assim mesmo depois de receber um indecentíssimo convite para um menage com mais um amigo - me deu uma curiosidade louca, ela explicou - e chegou na hora H os dois caras tiveram ejaculação precoce. Traumático, anos de análise para ela se libertar de todos os preconceitos e medos e agora isso...

Contive o choque e disfarcei o espanto. Pedi mais uma cachaça.

Lá para o final da conversa ela faz um revelação - Eu acabo tendo que aturar cada coisa, mas tudo o que eu preciso é tapar esse buraco... Toquei a correntinha da sorte com os dedos e pensei - É hoje, a correntinha não falha!

Pedi mais dois drinques - a mocinha não era fraca. Depois de uns goles, senti o calor no ar e parti para o beijo num momento que ela me olhou fixamente.

Ei! Que é isso! - ela falou numa voz bem fina e meio alta demais. Um monte de gente virou para olhar.

Engasguei. Gaguejei. Suei e avermelhei. Tentei justificar citando o bombástico "o que eu preciso é tapar esse buraco...". Ela riu gostoso, passou a mão no meu cabelo e explicou - O buraco é no meu coração, lindo! Acho que você se confundiu, nós somos muito amigos...

Uma meia hora super constrangedora passou até que eu conseguisse pagar a conta. Caminhei até meu carro ruminando a cena patética.

O flanelinha se aproximou - cinco conto e tá tudo em casa, chefão. Respondi que havia dado a grana para outro cara na ida. Porra, alemão, os caras te enganaram, só eu fico aqui nesse lugar - o figura retrucou, meio irritado - Aí, alemão, te fizeram de otário!

A agressividade do sujeito não me intimidou. Dei partida e guieilentamente até em casa. Os fatos recentes não saiam da minha cabeça, que parecia estramente pesada e oca. Só o eco das palacras a preenchia "aí, alemão, te fizeram de otário!"

20/07/07

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