Alexandre Orion

Por Alexandre Xavier

Conheça o artista que pinta quadros usando como “tinta” a poluição da cidade

Em São Paulo, a poluição é tanta que você nem percebe mais. Foi necessário que um artista plástico tirasse um pouco da fuligem de um túnel paulistano e desenhasse caveiras nas paredes para que a prefeitura entendesse a morbidez da situação e resolvesse limpar os túneis da cidade.

“Transformei a caverna urbana feita para os carros (os túneis) numa catacumba”, explica Alexandre Orion, artista plástico que cresceu em São Paulo e ficou conhecido no Brasil pelo projeto Ossário – as intervenções mórbidas nos túneis. Esse projeto foi a maneira que Orion encontrou para protestar não só contra a poluição, mas contra uma “cidade que não foi feita para a gente andar a pé”. Ele virou grafiteiro em 1993 e se formou em arte dez anos depois, mas a assustadora poluição da metrópole sempre chamou sua atenção. “Não foi por acaso que resolvi usar a fuligem num projeto artístico, além de ter crescido numa avenida movimentada e poluída, reparei que o túnel que passei uma vez para ir para casa ficara completamente preto em três meses. Um dia passei a mão naquela coisa e percebi o quão viscosa e espessa é o pó preto”.

Mas foi o fato de que os cidadãos respiram diariamente aquela “coisa” que fez o artista plástico intervir nas paredes dos túneis. “Com a minha arte tento entender a cidade, não somente utililizá-la como um ateliê”. Alexandre Orion definitivamente conseguiu chamar a atenção para o problema. A atenção da mídia e dos transeuntes, mas também das autoridades.

Ele passou 13 madrugadas num túnel da Avenida Cidade Jardim (bairro nobre de São Paulo) e, pelo menos quatro vezes por noite, ou a polícia ou a engenharia de trânsito o interpelava. "Mas eles não tinham como me prender, eu estava, na prática, limpando o túnel, tirando a sujeira da parede até aparecer o amarelo original”, relata. Depois de 17 dias, a prefeitura foi até o túnel para lavar a sujeira. “Mas eles só limparam os 300 metros onde eu tinha desenhado os ossários, só dias depois que lavaram o resto”. Orion passou então a fazer “ossários” em outros túneis. “Virou um jogo de gato e rato: onde eu ia, a prefeitura ia atrás com uma vassoura”.

Antes do Ossário, Alexandre Orion já havia criado o Metabiotics (fotografias que retratam a mistura de seus grafites com a realidade urbana) e chegou a expôr seus trabalhos em Nova York, São Francisco e Roterdã. Esse ano, Orion trabalha no Poluição Sobre Tela, série de quadros pintados com uma tinta feita de restos do Ossário (o pó preto que ele recolheu nos túneis paulistanos).

“Os panos ficavam imprestáveis, só que depois eu lavava e deixava a poluição decantar, vira fuligem pura, é impressionante”. Orion ainda faz caveiras nos túneis de vez em quando para recolher matéria-prima para seu novo projeto – sempre com máscara e luva porque a dioxina da poluição pode ser cancerígena (e mesmo usando proteção, depois de oito horas trabalhando ele ainda volta com tontura). “A tinta é nojenta, mas a fuligem oleosa funciona bem na tela. Misturo a poluição com um aglutinante e um catalizador, vira uma aquarela”. Alexandre Orion garante que sua nova invenção funciona. É muito provável que ele tenha achado o pigmento perfeito para retratar São Paulo. Serviço: www.alexandreorion.com