UMA JORNADA PARA OS OUVIDOS
Por Jody Gillett
Os quatro cantos do Brasil revelam diferentes cenários musicais.
E cada cenário desse revela uma característica diferente
do país
“Augusta, graças a Deus, entre você e a Angélica
eu encontrei a Consolação“. O samba oblíquo
de Tom Zé homenageando as avenidas de São Paulo bem poderia
ter sido nosso melhor mapa. Fomos convidados pelo Brasil Musica & Arte
para apresentar seminários em quatro cidades brasileiras, uma
jornada dentro da música como expressão máxima da
diversidade no país. Brasil Musica & Arte é uma organização
filantrópica que procura promover a música brasileira internacionalmente
através de parceiros nas áreas comercial, institucional
e de mídia. Com o apoio da APEX, Agência de Promoção
de Exportações e Investimentos, o objetivo é encorajar
uma plataforma global para a música independente brasileira dentro
de um contexto cultural. Cultura como um produto de exportação
tangível é um negócio complicado; você não
pode embalar e vender por quilo, como café. Mas a música
tem o incrível poder de nos levar ao lugar de onde ela veio. Nós
estamos apenas descobrindo as imensas riquezas da música brasileira.
Em um país tão vasto e culturalmente diverso como este,
cada estado soa diferente.
São Paulo
Para começar, uma volta pelas avenidas de Tom Zé. Em São
Paulo, a segunda maior cidade do mundo, temos a impressão de poder
vivenciar Nova York, Paris e Barcelona em apenas uma tarde. Entre os
viadutos e arranhas-céu você encontra travessas cobertas
de folhas e o vibrante bairro boêmio da Vila Madalena, dizemos
`boêmio‘ para expressar que há muitos, muitos bares
bacanas. Mais para o centro há a mágica Baratos Afins.
Forrada do chão ao teto com vinis raros e CDs novos, é uma
reconhecida loja de discos independentes e selo que está no mercado
há quase 30 anos.
A próxima parada é o refinado SESC
Vila Mariana, um dos 200 SESCs espalhados pelo Brasil. Promovendo encontros
entre artistas, selos e distribuidores, esta esquina underground é para
todos os gostos – da eletrônica ao pós-punk, do hip
hop social ao samba-rock… um cenário cheio de vida e feito
por gente que entende do gingado. Altos índices de pirataria atingiram
o Brasil décadas atrás, o que fez a música brasileira
independente ganhar experiência em lidar com problemas que a indústria
musical britânica só agora enfrenta. É comum encontrar
pequenas empresas que acumulam as funções de selo, agente,
publicidade, gerenciamento e divulgação. Artistas independentes
utilizam plataformas como tramavirtual.com.br para exibir seu trabalho
e fazer contatos. Você encontra sociedades público-privada
por trás diversas organizações, de fabricantes de
CDs de baixa tiragem a grandes festivais. São Paulo é sem
dúvida um centro de ferveção sem fim para os pioneiros
da música.
Goiânia
Rumo ao oeste, no estado central de Goiás, Goiânia é conhecida
como a capital do rock no Brasil, com seu alto índice de guitarras
per capita é talvez o lugar mais provável onde possa surgir
um Artic Monkeys brazuca. A cena musical de Goiânia tem ganhado
fama em grande parte graças ao trabalho da Monstro Discos – gravadora,
criadores do Goiânia Noise Festival e co-fundadores do festival
nacional de música independente, o ABRAFIN, eles vivem para o
rock.
O estado também é famoso pela música sertaneja,
as exuberantes planícies do interior, centro de criação
de gado, invocam violões chorosos e lamentos emocionados. Sentiu
vontade de viver algo mais selvagem? Canyons, estradas e cachoeiras, águas
termais e um parque nacional gigante estão à sua espera.
Mais tarde, no Centro Cultural Martim Cererê, rola um festival,
e parece que todas as bandas da cidade estão presentes. É comovente
ver os moleques roqueiros assistirem à apresentação
dos artistas sertanejos. A noite começa com o caipira de raíz
tocado belissimamente por Roberto Correa, e termina com a mistura explosiva
de ska do Móveis Coloniais de Acaju.
Fortaleza
A capital do estado do Ceará, abriga anualmente a Feira da Música,
um ponto de encontro da cultura nordestina com seminários e apresentações
que atraem representantes de todo o país. Nos bares, casas de
shows e palcos ao ar livre espalhados pela cidade você pode trombar
com bandas como a electro-punk Montage, a primeira banda brasileira a
tocar no mundo virtual do Second Life, assim como o impressionante grupo
folclórico Canários de Munin do vizinho Maranhão,
que consegue fazer a rua inteira dançar na balada do coco e ciranda.
Durante o dia a dica é o Mercado Central onde se encontra todos
os tipos de mercadorias, de redes a chapéus e poesia. Os restaurantes
por quilo oferecem almoços fartos, sirva-se à vontade pague
de acordo com o peso. Ceará também é famosa pelas
praias espetaculares como a descolada Canoa Quebrada com seus bares movimentados
e buggy nas dunas e a pitoresca Jericoacara de areias brancas e mar azul-celeste.
Salvador
Salvador é uma das cidades mais antigas e históricas do
Brasil com profundas conexões culturais com a África e
de arquitetura colonial. A UNESCO nomeou o antigo bairro do Pelourinho
Patrimônio da Humanidade, e é lá que Gal Costa,
uma das filhas mais famosas da Bahia, canta num evento gratuito ao ar
livre. O quarteirão é tomado por milhares de pessoas de
todas as idades, e a multidão inteira canta cada palavra de cada
música com ela, um momento lindo, mágico. O show gratuito é uma
das muitas iniciativas do novo secretário da cultura para manter
a música no topo das prioridades do Estado que deu ao mundo estrelas
como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Dorival Caymmi. Mais tarde encontramos
a jovem e encantadora Mariene de Castro cantando na sua habitual noite
de sábado na festa de samba da roda, imperdível!
Desde
os anos 30, a Sorveteria da Ribeira na Cidade Baixa faz deliciosos sorvetes
com sabores de frutas tropicais tão irresistíveis
que fazem você se perguntar se ‘sorvete‘ também
poderia ganhar o título de Patrimônio da Humanidade da UNESCO.
Peça um sorvete de duas bolas de cupuaçu e salve a Amazônia!
Estamos
no final da nossa viagem, a diversidade musical é impressionante,
e isso é apenas a ponta do iceberg. Por todo Brasil novos centros
criativos estão fervendo. Manguebeat, o movimento cultural brasileiro
mais significante desde a Tropicália, invadiu Recife, uma cidade
que já foi considerada atrasada e provinciana, e é hoje
a capital da inovação musical brasileira. Neste exato momento,
próxima da Amazônia, Belém está borbulhando
com o technobrega. Será que a explosão do eco-turismo e
as mega festas na praia farão do Pará o próximo
centro cultural do país? Nós voamos de volta para São
Paulo, terra do CSS, a banda que mais do que qualquer outra no momento
trilhou uma história de grande sucesso para a música feita
no Brasil. Seria ela digna representante da cultura brasileira? Com certeza,
eles são inspirados e originais. E não há nada mais
brasileiro que isso.
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