MANU CHAO

WORDS: Peter Culshaw

Manu Chao é um cara que consegue casar várias contradições. A julgar pelo lançamento do seu novo álbum no mês passado, La Radiolina, já best seller na América do Sul e na Europa (embora ainda não no Reino Unido), Manu é uma estrela da música pop. Mas também é um radical homem do povo. Ele toca para 100 mil pessoas na Cidade do México, só que também toca para estivadores em greve, toca em reservas indígenas e em bares pequenos.

Entre seus trabalhos em andamento estão a produção do álbum do filho de Amadou e Mariam (o casal cego malês cujo best seller Diamanche A Bamako Manu Chao produziu brilhantemente) e a produção de um álbum do La Colifata, banda formada por internos de um hospital de doentes mentais de Buenos Aires. E ele também me diz que irá produzir em breve seu ‘álbum brasileiro’.

Manu nasceu em Paris, seus pais são da Galícia e do País Basco, e sua música reflete suas origens. Conheci-o num bar perto da sua casa, localizado na área gótica de Barcelona, onde ele já arranhou na sua guitarra surrada vários trechos do tal do seu “disco brasileiro”. Essas músicas foram cantadas em portunhol, língua que Manu usa quando está no Brasil (algo que acontece com freqüência).

“O Rio é a melhor cidade do mundo”, diz ele. “É a única cidade do planeta na qual você pode entrar num bar tocando tambor e o povo só vai ficar incomodado se você parar de batucar”. Foi lá no Rio que Manu se recuperou da dissolução da Manu Negra, sua influente banda de punk francês. Ele confessa que estava depressivo, “até mesmo suicida”. A depressão só foi embora quando uma vaca entrou no seu bar favorito: “olhei para os olhos da vaca e vi tanta tranqüilidade e serenidade que aquilo me ajudou”. Depois disso, Manu passou a ver vacas em todo canto e diz entender hoje porque os hindus veneram o animal. “A Índia está me chamando, vou lá um dia, vou precisar fazer isso”, conta. Hoje em dia ele até carrega olhos de vaca na sua jaqueta da turnê.

Manu também adora os outros estilos de música do Rio de Janeiro. Tanto o baile funk das favelas, quanto o chorinho dos bares da Lapa e o forró do mercado de São Cristóvão. E ele não é como a maioria das estrelas internacionais que se hospedam no Copacabana Palace: Manu está freqüentemente nas favelas. É a violência dessa realidade do Rio, diz ele, que provoca raiva a raiva presente nas suas letras (vide faixas como Rainin in Paradise do La Radiolina). “Eu já estive nas favelas e ouvi uma vez um cara sendo torturado e gritando ‘me matem, por favor’, e não há nada que eu possa fazer a respeito”.

Quando digo a ele que gosto tanto de São Paulo quanto do Rio, ele responde que “por não conhecer bem a cidade,  passei horas depois de um show perambulando por São Paulo no meio da noite, falando com as pessoas, como fazem as prositutas mirins”. Manu prefere o Rio de Janeiro. “Lá sou o guitarrista da vizinhança, os velhinhos não sabem que sou o Manu Chao e eu canto pra eles durante horas e horas no boteco da esquina”.

O guitarrista da vizinhança também já foi ao Fórum Social Mundial em Porto Alegre: “eu estava acampando lá e foi bem interessante, conheci gente da Bolívia, México, Peru, Brasil, gente de tudo o quanto era lugar. Curti a energia do lugar, me deu esperança, foi algo positivo”. As pessoas estão sempre tentando envolver mais o Manu Chao em assuntos políticos. “Prefiro ser um cidadão”, diz ele. “Não precisamos de líderes, precisamos que todos nós sejamos um líder”.

Mora no seu coração também a capital do Ceará, Fortaleza, onde seu filho vive com a mãe. “Eu estava no Rio e esse cara me perguntou  se eu era cearense por causa do meu sotaque, fiquei bem orgulhoso”. Manu também adora a música típica do Nordeste. Ele mencionou ter viajado  com os Repentistas – os trovadores da região – à base de nada mais que cachaça. Será que Manu gosta de Luiz Gonzaga? “Claro que gosto, ele é o Bob Marley do Nordeste. A primeira coisa que você tem de conhecer quando vem do Ceará é a música de Luiz Gonzaga”, responde Manu, que logo começa a cantar uma música de Gonzaga sobre irrigação e uma seca que durou dez anos.

O parisiense também me conta que está sendo iniciado como filho de Xangô (um orixá do Candomblé) por uma mãe-de-santo na Bahia. Parte do processo aconteceu na última vez que o vi tocando, no Prospect Park em Nova York, para um público extasiado. Caiu uma das piores tempestades do ano, a platéia ficou encharcarda e a atmosfera balançou com os trovões. Como Xangô é associado a trovões, disse a ele que talvez o orixá estivesse na casa aquela noite. Ele concordou.

A tempestade não afogou, porém, o espírito da galera. Todo mundo continuou cantando junto com Manu a música Próxima Estación – Esperanza (nome também do seu último álbum de estúdio, que ele tirou de uma estação de metrô de Madri). O artista representa uma espécie de esperança pra muita gente, principalmente para aqueles descontentes com a hegemonia norte-americana e as políticas de George Bush (assunto que ele aborda na faixa Tristeza Maleza do La Radiolina – faixa esta que Manu canta com os doentes mentais do La Colifata). Manu Chao consegue ser político sem ser chato e sem passar sermão. É a política da “fiesta”.

Conversamos também sobre a Amazônia. Manu é fascinado pelos xamãs – “conheci muitos xamãs, embora nem todos eles tenham confessado serem mesmo isso” – e seu interessa na “cura” vem aumentando. “Se eu não estivesse fazendo música, gostaria de aprender como curar com as minhas mãos”.

O Brasil para Manu Chao representa outra visão da América (uma diferente da que representa os Estados Unidos). Digo a ele que, apesar de todos os problemas que ocorrem no Brasil, o país não tem homens-bomba ou estudantes produzindo massacres nas escolas. “Entendo o que você diz, acho que há um certo tipo de sanidade no Brasil”, responde o artista.

“O Brasil não é um país, é um continente”, completa Manu. Mas um continente “é feito de um monte de países diferentes – você sabe, eu amo este país”.



CRÍTICA
MANU CHAO – LA RADIOLINA

Por Érika Tambke

Foram 6 longos anos de espera até La Radiolina. O sucesso de seus discos anteriores, “Clandestino” (1998) em especial, garantiu a Manu Chao uma legião de fãs e turnês com shows esgotados mesmo sem nada novo na praça. Apesar de desconhecido no UK (ou EUA), Manu Chao é gente grande mundo afora. Robbie Williams e Lilly Allen já regravaram musicas do cantor, por exemplo.

Apesar da ansiedade pela novidade, a primeira vez que se escuta o álbum tem-se a impressão de deja-vu. As músicas são parecidas e lembram álbuns anteriores. Para um artista engajado como o Manu Chao, isso é uma decepção. Politicamente, o mundo mudou desde 1999 e isso aparece pouco nas letras. Musicalmente, o artista percorreu ínumeros países buscando novos acordes e influências – sua atuação como produtor da dupla de Mali, Amadou & Mariam, é um excelente resultado disso. Mas em “La Radiolina”, parece que o mundo é quase o mesmo de 6 anos atrás. Nem ele mudou.

Entretanto, nota-se que algumas faixas indicam uma volta à guitarra e às suas raízes punk-à-la-The-Clash. São 21 músicas, mas muitas não passam de 2 minutos. Para os nostálgicos do estilo Mano Negra, o álbum traz boas faixas: The Bleeding Clown, Raining in Paradize, El Hoyo e Panik Panik matam saudades.

Outras músicas marcam bem o ecletismo do CD: a abertura “13 dias” lembra uma guitarra meio country, ali pela fronteira do México. “Me llaman Calle” é melódica, de base flamenca e com boa letra, certamente das melhores. “La Vida tombola” fala de Maradona e vai por um viés sul-americano. Ou seja, tem para todos os gostos.
Aos fãs de outrora, o cd vai agradar. Para quem nao conhece, merece atenção porque é bem original. Influências de Chao são visíveis em muitas bandas que freqüentam os palcos londrinos. Se o músico cumprir a promessa, esse será o seu último CD, com direito a um belo encarte com as letras. A partir de agora, apenas singles via internet.