O ciclo da vida
por MdC Suíngue

A vida em Londres não é bolinho não, meu amigo. Aqui tem que rebolar para se virar. O custo de vida é um dos mais altos do mundo, e se marcar bobeira a miséria e os credores estão à sua porta para separar você do seu parco numerário.

Então a gente se vira como pode. Uma das minhas encarnações para pagar contas e pecados é como fotógrafo. Fotógrafo de casamentos nigerianos. Casamento e eventos em geral. Eu tenho um agente, ele diz onde é a festa, eu vou lá e clic clic clic. Cento e poucos “clics” por evento, em média. Entrego o filme para o cara, ele me paga e faz o resto.

Pode-se dizer que é uma experiência enriquecedora. No final de agosto, por exemplo, pude contemplar um ciclo inteiro da vida em apenas quatro dias. Um batizado, duas festas de aniversário (21 anos e 70 anos), um casamento, uma convenção, e um funeral. (Ainda estou tentando encaixar a convenção no sentido da vida, mas acho que meu espírito ainda não é iluminado o bastante para compreender.)

Pode parecer estranho documentar funerais, mas para a comunidade nigeriana parece ser uma coisa corriqueira já que esse não é o primeiro que eu faço.

Eu costumo dizer que Londres são várias cidades pequenas uma em cima da outra. Mesmo tendo gente de todo lugar do mundo, diferentes comunidades vivem e socializam sempre na mesma esfera. Como se fossem varias dimensões existindo no mesmo espaço. Você vê pessoas que se vestem e falam de forma diferente, mas nunca tem muita oportunidade de conhecê-las a fundo.

Tomei contato com a comunidade nigeriana através de um cara que trabalhava comigo numa dessas lojas de revelação 1 hora. Evangélico e com uma paciência de Jó para agüentar o turco dono da loja, Segur cobria casamentos nas horas vagas, e sabendo que gosto de fotografia me deu o contato desse agente.

Não foi difícil me adaptar. Na verdade, nigerianos são baianos, mais baianos que os baianos, são os protobaianos, os baianos originais. Tome como exemplo o que eles chamam de “african time keeping”, o eufemismo que eles usam para atraso. Já nem me sinto culpado quando chego atrasado em algum lugar, declaro que não é minha culpa e sim da minha herança cultural africana. E mesmo que eu chegue tarde eles estão sempre mais atrasados ainda.

Como os baianos, com os nigerianos qualquer coisa acaba em comilança, dança e cantoria – inclusive alguns funerais. Eles gostam de comer e muito, ser gordo é sinal de prosperidade. A comida é apimentada e pesada. De vez em quando tem uma salada, mas aparentemente eu sou o único que come. Quando eles vêem os pratos que eu sirvo para mim, me olham com misto de pena e indignação. É obrigação do anfitrião fartar os convidados de comida e agrados. E eu sou um convidado muito especial, pois eles são vaidosos e eu sou o fotógrafo.

Qual o sentido de usar todo esse ouro, todas essas cores, todo esse penteado, toda essa maquilagem e o sapato combinando com a bolsa se a galera na Nigéria não vai ver? Eu tenho estritas instruções do agente de mostrar tudo isso nas fotos.

Eles não resistem a uma camêra, já vão logo fazendo pose. Eles se ajeitam todos mas na hora do clic raramente olham para a câmera, o passarinho está em outro lugar. Azar das regras da boa fotografia, eles acham mais cool assim e pronto.

Para vídeo é mais engraçado ainda, eles não querem uma edição com o melhor da festa, eles querem a festa inteira. Se a festa tem oito horas e você entrega uma fita com três eles ficam putos, tem que ser no mínimo seis. E eles posam para a câmera de vídeo como se fosse para fotografia. Todo mundo pronto??? Lá vai... Aí eles ficam por um minuto na mesma pose.

Trabalhar nos casamentos, festas e tal não pode exatamente ser considerado trabalho duríssimo, em geral me divirto e acabo comendo um monte (para meus parâmetros) e bebendo se o evento não é de evangélico radical.

O que eu realmente não me acostumo são os enterros. Por que cargas d’água alguém pode querer filmar o funeral de um ente querido??? Não é só registrar a missa, enterro e tal. Tem que fotografar o caixão aberto, geral, close up do falecido, a viúva contrita com a mão na borda do caixão aberto, um por um da família e aí uma do grupo.

Lidar com as emoções alheias em um casamento é uma coisa, mas estar presente na hora em que a viúva esta vendo o marido pela última vez, ouvir o desabafo das falhas mútuas e das culpas que agora só há um para carregar é um pouco demais. De vez em quando você tem que delicadamente lembrar a pessoa que tem uma câmera gravando tudo. Eu me sinto meio deprimido e constrangido, mas busco forças olhando para os agentes funerários que estão ali sérios e compenetrados, mas quando os parentes deixam a sala comentam o jogo do Arsenal ou descobrem um pedaço do corpo para mostrar a diferença de aspecto entre a parte maquiada e a não maquiada. “It’s just a job”.

A resposta a minha questão do porque registrar um enterro veio quando eu fotografava a colocação do caixão no carro funerário. O cara que é o meu agente estava filmando nesse dia, e disse que era essencial fotografar a placa do carro e a locação da funerária.

Todo esse registro não é só para guardar ou mandar para parentes distantes na África. Tem o fator seguro e o fator herança. O fator herança é explicado pelas complicadas relações familiares e tribais que eles trazem da Nigéria. As famílias são enormes, e as tribos e nações inúmeras. Às vezes tem um cara que trabalha de bibliotecário aqui, mas lá ele é o herdeiro da liderança de uma tribo ou família de milhares de pessoas. Dúvidas sobre morte do bibliotecário aqui podem desencadear uma séria briga de poder em algum canto perdido na África.

O aspecto seguro se explica por duas semelhanças entre o Brasil e a Nigéria: muita corrupção e muito 171, que lá não se chama 171, é outro número (400 e algo). Mas quer dizer a mesma coisa, fraude no código penal. Daí a necessidade do close up, da placa do carro, da locação de funerária e tudo mais.

Os nigerianos têm uma imaginação fértil para organizar trambiques, o mais famoso deles no momento é aplicado pela internet, onde pedem que você ajude a desbloquear milhões de dólares que ficaram “sem dono” depois da última troca de poder em alguma ditadura africana. Milhões retidos em um banco apenas aguardando seus dados bancários para serem depositados em sua conta. Ah, sim e alguns milhares de pounds que você precisa depositar antes para iniciar os tramites... Acredite, não é pouca gente que cai.

Voltando ao meu funeral do fim de semana seminal: Depois da missa, enterro e tudo mais, teve a recepção, em um restaurante onde para variar se comeu muito. Cantaram algumas canções religiosas, mas dessa vez não dançaram. Na última ‘conversa’ que a viúva teve com o falecido a beira do caixão notei que foram mencionados alguns rachas na família em relação aos filhos, fazendo o ambiente mais triste e pesado que o normal. A conversa foi quase toda em Yoruba, deu para eu pescar as partes em inglês, mas devia ser problemão mesmo para eles deixarem de cair na dança.

Mas no fundo o sentido da vida é esse: você casa, imagina uma vida maravilhosa a sua frente, batiza seus filhos querendo lhes dar essa vida maravilhosa que você não teve aí na festa de maioridade deles você descobre que fez tudo errado de novo, briga com eles, na sua festa de setenta anos pensa em reconciliar, mas deixa para o próximo ano, mas você morre antes e fim. Para você, pois a família continua lá cumprindo o mesmo ciclo de novo novamente mais uma vez e assim por diante.

E a convenção? Ainda não sei onde ela se encaixa no sentido da vida, mas enquanto vocês, plebeus, se misturavam com a gentalha ignara do seu dia a dia, eu lá travava conhecimento com a realeza.

Fotografei a visita de um imperador a seus súditos nos UK. O Rei de Oba, terra da nação dos Ondos. Ainda que eu não consiga lembrar o nome dele, pois era muito longo, eu e ele somos assim, ó: brothers!

Não apertei a sua mão, mas também não tive que me curvar quando fomos apresentados. De igual para igual, tá ligado?

A única hora esquisita foi quando eu pedi a ele e a esposa que se levantassem da cadeira para tirar uma foto de corpo inteiro. Foi aquele silêncio acompanhado de sinais frenéticos dos súditos ao fundo.

“Não se fotografa “The King of Oba, Land of the Ondo Nation” de pé!”

Não me pergunte por que, pois agora parafraseando o poeta maior:

“Vou-me embora para Oba,
pois lá sou amigo do Rei”

by MdC Suingue, jornalista chato, fotógrafo sem amigos e metido a dj. E não, ele não faz parte da comunidade da Jungle no Orkut.

baddog70@hotmail.com